Notícia postada em 12 de agosto de 2017 às 09:16

O politicamente correto… por Ralf Vidal

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Publicado a seguir, o artigo “A ditadura silente: o politicamente correto em uma perspectiva histórica”, do articulista Egon Ralf Souza Vidal, permite ao leitor o rastreio histórico dos antecedentes que condicionaram o atual estado de coisas nas sociedades ocidentais, onde sofre-se com a impossibilidade de expressar-se livremente sem que haja acusações repressivas e incoerentes.

Das origens do politicamente correto na escola de Frankfurt (Alemanha), até a sua chegada na cultura americana, em Nova York, durante a II Guerra Mundial, o artigo destaca os principais elementos dessa instituição repressiva, ignóbil, e seus efeitos na livre expressão e nas ações psicossociais das esferas relacionais da sociedade e da cultura brasileira de hoje.

A seguir o artigo na íntegra.

 

A DITADURA SILENTE:

o politicamente correto em uma perspectiva histórica

 Não raro nos sentimos freados ou impedidos de fazer algum comentário mais detalhado em uma conversa pública, em salas de aula, por vezes em nossos lares e até mesmo nas redes sociais. Isto ocorre, geralmente, frente à percepção da possibilidade iminente de uma rápida objeção ou, de uma extensa punição, embasadas nos ultrajantes e habituais “lemas de ordem e repressão”, tais como “fascista”, “nazista”, “homofóbico”, “preconceituoso”, “racista”, “misógino”, “machista”, “xenófobo”, etc. Ora, quem ousaria a, na atualidade, dizer o que pensa ou mesmo descrever a realidade concreta das coisas sem ao menos ponderar sobre tais ameaças e consequências? O que vem a ser esta mordaça que silenciosamente encerra nos lábios de sujeitos pensantes, por vezes, verdades atemporais? A resposta é simples, porém obscura…

O período de surgimento de toda a elaboração para o estabelecimento de um estado de “linguagem não-discriminatória”, comumente chamado de politicamente correto, remete às vésperas de fenecimento da Primeira Guerra Mundial, na Europa. Neste período (1917), a expectativa política de muitos comunistas, pautadas nas previsões realizadas por Karl Marx, era a de que todos os países da Europa ocidental adeririam, com o incentivo maciço da classe trabalhadora, a revolução comunista – seguindo o mesmo percurso de conflitos que começava a se interpor na Rússia com os bolcheviques. Contudo, os trabalhadores não agiram em conformidade com aquilo que Marx esboçara como previsão.

Ao perceberem o fracasso das previsões de Marx, o italiano Antonio Gramsci e o húngaro Georg Lukács empreenderam uma séria análise dos fatores que impediram a revolução comunista nos países ocidentais. Os valores patrióticos, a força dos enlaces familiares e o poder dos princípios religiosos judaico-cristãos, segundo supuseram, impediram que a classe trabalhadora adotasse os ideais marxistas e assumissem todo o encargo para promover a revolução do proletariado. Perceberam, do mesmo modo, que uma revolução violenta como a ocorrida na Rússia, não seria possível no mundo ocidental. O que viria a ser necessário para levar a efeito o ideário marxista, segundo estes teóricos, era uma progressiva, silenciosa e aparentemente despretensiosa revolução, que Gramsci chamou, simplesmente, de revolução cultural.

O propósito da revolução cultural era unívoco e abertamente declarado: destruir os pilares da cultura ocidental ao passo em que se impregnariam, no imaginário coletivo das sociedades, as ideias socialistas, de modo que as pessoas – ou idiotas úteis, como chamou Gramsci –, tornar-se-iam socialistas sem perceber, gerando assim um espaço cultural hegemônico, sem ideias contrárias e com um vocabulário extremamente programado (tais como “desconstrução”, congêneres e termos apresentados no início do texto). Após tal revolução, finalmente, a revolução política viria a efeito para arrematar todo o povo adestrado pelo ideário do “marxismo cultural” (ou filosofia da práxis), como chamaram posteriormente a obra de Gramsci.

A semelhança das reflexões gramscianas com a realidade cultural do Brasil não é mera coincidência, visto que aquele que se considera o principal discípulo de Gramsci em nosso país também foi o nosso Presidente da República: Fernando Henrique Cardoso (FHC). FHC foi o principal responsável pela cultura desarmamentista, pela implementação das teorias da sexualidade nas escolas brasileiras, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de 1998, dentre outros “brilhantes feitos” regidos pela maléfica agenda de Gramsci. Apedagogia do oprimido”, de Paulo Freire – o conclamado patrono da educação brasileira –, do mesmo modo, baseia-se nos pressupostos discutidos por Gramsci em seus Cadernos e Diários do Cárcere.

As ideias de Gramsci ganharam forte repercussão a partir de 1925, em Frankfurt, na Alemanha. Tendo patrocinado a abertura do Instituto de Pesquisas Sociológicas de Frankfurt, ou, simplesmente, Escola de Frankfurt, Felix Weil encontrou nas ideias de Karl Korsh os argumentos necessários à compreensão dos entraves que impediam a implantação do comunismo no mundo ocidental. A tese de Korsh postulava que a família, a igreja e a escola são as instituições intermediárias da relação sujeito-Estado. Nesse contexto, passou-se a crer que tais instituições deveriam ser subvertidas para que, por fim, a revolução marxista viesse a efeito e o Estado, enfraquecido, pudesse ser desmantelado e a sociedade levada à utopia comunista.

Do postulado de Korsh, outro comunista, Max Horkheimer, desenvolveu a sua Teoria Crítica que, em suma, objetivava criticar tudo aquilo consideravelmente burguês – que pode-se traduzir aqui basicamente como os elementos mantenedores do status quo do mundo ocidental e do capitalismo – para criar uma nova cultura, cujos valores fossem determinados por uma ordem polimorfa e renovada, a fazer com que os pilares estruturantes da moralidade ocidental viessem a sucumbir dando lugar a uma sociedade que, aqui considero, insurgiria como fragmentos de uma severa esquizofrenia, uma esquizofrenia social, conquistada pelo recrutamento de minorias desavisadas. É fato que estas intenções não resumiram-se em meras conjecturas, mas, pelo contrário, obtiveram a sua maior práxis em um momento sensível da cultura ocidental: o período posterior à Segunda Guerra Mundial.

No ápice da Segunda Guerra Mundial, com a Alemanha sofrendo nas mãos do socialismo de Hitler (de uma vertente não marxista), a Escola de Frankfurt dissolveu-se momentaneamente e, com a partida dos seus principais expoentes, transferiu-se para os EUA, em Nova York. Ressurgindo em solo americano, as ideias de Hebert Marcuse e Theodore Adorno foram acolhidas com bastante entusiasmo, especialmente porque mesclavam-se num composto de Psicanálise freudiana e ideologias marxistas. Mais tarde, suas teses conquistaram ampla propagação no espaço livre de ideias (ou senso comum), contribuindo para o surgimento da nova esquerda (new left) norte-americana, para os anos de “sexo, dogras e rock’n’roll” da era hippie, ao “faça amor não faça guerra” ao longo da Guerra Fria e do Vietnã e, finalmente, aos movimentos feministas e raciais iniciados por tais teóricos dentro das universidades, nas ruas.

O movimento que vinha se fortalecendo nas universidades norte-americanas trazia, em seu bojo, os elementos para a construção de uma sociedade em nova perspectiva, pautada em ideias desarmamentistas, anticristã, antissemita, gayzista, abortista, contrária à família, à propriedade privada e pautada na absoluta erotização da personalidade humana. Os componentes da nova atmosfera criada por meio do usufruto da Teoria Crítica em solo norte-americana foram sendo gradativamente incorporados nas universidades e propagados nas discussões do senso comum por meio da influência e do tremendo impacto que obras como “A personalidade autoritária”, de Adorno, e “Eros e a civilização”, de Marcuse, causaram. Por fim, estes elementos discursivos – boa parte deles arbitrários e absurdamente incongruentes com a realidade – foram sendo incorporados culturalmente, conformando-se em nosso establishment contemporâneo, onde se vê negros contra brancos, gays contra heterossexuais, pobres versus ricos, gordos versus magros, etc., e vice-versa, representando perfeitamente a transposição das teorias marxistas da esfera econômica à dimensão cultural.

Sem subterfúgios, se observa o profundo impacto histórico das teses de tais teóricos no livro “The Dialetical Imagination: a history of the Frankfurt School and the Institute of Social Research 1923-1950” do historiador Martin Jay, prefaciada pelo próprio Horkheimer. Do mesmo modo, em obra coletânea com ensaios de Herbert Marcuse, Theodore Adorno, Max Horkheimer e outros, chamada “A dialética da família”, publicada no Brasil e organizada por Massimo Canevacci, vê-se diversos ensaios críticos acerca da família monogâmica que, conforme se discutia em Frankfurt, é o núcleo de ordem e coesão do Estado e, portanto, deveria ser criticada a todo o custo como instituição repressiva – algo que não será visto como coincidência pelo leitor atento ao identificar este mesmo feito, o ato de criticar a família, nas telenovelas brasileiras e no cinema ocidental, bem como em narrativas poéticas e em romances contemporâneos.

Do fluxo das análises em torno da dialética família versus Estado promovida pelos teóricos de Frankfurt, há uma conformação sintética apresentada em proporcionalidade diametralmente oposta, por assim dizer, que se resume na seguinte sentença: quanto mais família, menos Estado; quanto mais Estado, menos família. Desta premissa desvela-se uma das maiores intenções e conquistas desses teóricos: enfraquecer a instituição familiar, como por meio do incentivo à inserção maciça da mulher no mercado de trabalho, para que, desse modo, as crianças pudessem ser tuteladas pelo Estado mediante as suas várias organizações, como as creches e as escolas públicas, tornando possível impetrar o ideário do marxismo cultural, em especial o forte estímulo à sexualidade, sobre as crianças. Foi exatamente isto o que fez Georg Lukács, em sua atuação como deputado comissário para a cultura do governo bolchevique em 1919, na Hungria, com a implantação do seu programa “Terrorismo Cultural”, que incluía forte educação sexual das crianças nas escolas.

Se por um lado os ideais dos teóricos da Escola Frankfurt eram a criação de uma sociedade depravada, livre da preocupação de compreender a realidade, desejosa por transformar tudo que lhe é alheio e embasada na sexualidade, hoje sabemos que eles lograram tais objetivos. A instituição do politicamente correto se tornou o mecanismo perfeito de censura das opiniões de todos, menos dos “agentes de transformação social”, visando esfacelar quem se opõe: à superposição do sexo em detrimento de outros aspectos constituintes da personalidade e da vida humana; à fragmentação do self (do eu) em detrimento do sexo; ao enfraquecimento das faculdades intelectivas em prol da ignorância crítica; à depravação da família em troca do “amor livre”; ao desfalecimento das religiões em serviço de uma consciência materialista; e, finalmente, ao estabelecimento de uma sociedade sensível (geração “mimimi”), limítrofe, disfórica, atada a uma estrutura discursiva superficialmente crítica, pré-determinada por teorias ideologicamente viciadas e educadas em masmorras de ignorância.

 

EGON RALF SOUZA VIDAL

Articulista e graduando em Psicologia

E-mail: ralf_vidal@hotmail.com

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